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Embora a Sociolinguística e a Fonética compartilhem interesses, como a análise de dados reais (i.e., não da intuição), o tratamento quantitativo desses dados e a orientação para abordagens empíricas (Thomas, 2013), apenas mais recentemente têm-se desenvolvido pesquisas sociolinguísticas que factualmente se atentam a características acústicas e à gradualidade dos fatos de variação (p.ex., Brescancini; Foulkes, 2017), para além da codificação de oitiva e categórica de variáveis fonéticas. A fala de migrantes internos é objeto especialmente rico para a análise sociofonética, já que a aquisição ou a acomodação a traços linguísticos característicos da nova comunidade usualmente ocorrem de modo não discreto e os padrões de uso linguístico são aparentemente mais dispersos do que na fala de indivíduos não migrantes. Esta comunicação tem o objetivo de apresentar resultados preliminares do Projeto Coesão e Dispersão (FAPESP 2023⁄00968-7), sobretudo os desafios metodológicos da análise sociofonética de quatro variáveis diferenciadoras de dialetos do Nordeste e do Sudeste – vogais médias pretônicas /e/ e /o/, como em “relógio” e “romã”, e /r/ e /s/ em coda, como em “mar” e “mas”. Tais análises são desenvolvidas sobre 165 gravações de entrevistas sociolinguísticas, provenientes do Projeto Acomodação (72 alagoanos e paraibanos residentes no estado de São Paulo) e das amostras-controle VALPB (Hora 1993), PORTAL (Oliveira 2017), SP2010 (Mendes & Oushiro 2012) e amostra Campinas (Mourão 2018). Atualmente as gravações se encontram em fase de segmentação acústica com auxílio de alinhadores automáticos (Goldman 2011; Kruse & Barbosa 2021; Batista et al 2022). De modo mais amplo, o projeto objetiva investigar (i) se a fala de migrantes é mais dispersa do que a fala de nativos não-migrantes; (ii) em que medida o Indivíduo determina a variabilidade na fala de migrantes, face a variáveis macrocategóricas, como seu gênero ou idade de migração; e (iii) em que medida os migrantes são coesos em seus padrões de aquisição de múltiplos traços dialetais da nova comunidade (p.ex., acomodação concomitante a /r/ retroflexo e vogal média pretônica [e] menos baixa). A aplicação de alinhadores automáticos tem se mostrado essencial para segmentar acusticamente uma grande quantidade de dados, como costuma ser o caso das análises variacionistas. Os alinhadores, contudo, foram desenvolvidos e avaliados com base em fala de laboratório, e ainda não foram suficientemente testados com amostras de fala espontânea. Sua aplicação inicial em gravações de entrevistas sociolinguísticas indica que a segmentação automática tende a falhar quando há ruídos de fundo, sobreposições de vozes, alongamentos segmentais e em trechos pouco inteligíveis; em anotações com mais de 8 segundos de duração; e em itens lexicais que frequentemente sofrem perda de segmentos, como em conjugações do verbo “estar” e no pronome “você”. Nesse sentido, o Projeto Coesão e Dispersão tem desenvolvido um protocolo para a otimização da segmentação acústica automática e revisão desses dados, com vistas à expansão de análises sociofonéticas sobre amostras de fala espontânea. Em etapas futuras, a segmentação acústica propiciará a análise mais detalhada dos processos de mudança na fala de indivíduos em situação de contato dialetal.